Texto produzido por aluna é destaque no IFBA - Campus Barreiras

Asas de Esperança

Devemos ver além do nosso tempo,

pois este logo se passa”.

Pedro Jorge

Onde estás, Senhor Deus?”1. Talvez a pequena Ruby Bridges questionava-se, quando com ligeiros passos caminhava escoltada por policiais que lhe garantiam a segurança, já que apesar de ter sido aceita pela escola americana sulista, os alunos e seus pais a odiaram, tentando agredi-la fisicamente e obtiveram êxito com ataques psicológicos, provocados pelo simples fato de ser a primeira menina negra a frequentar uma escola para bancos nos EUA. Ruby talvez, pela pouca idade, não compreendesse o porquê de tanto desprezo, mas seus pais sim, provavelmente queriam eles dar continuidade ao processo de “evolução embrionária da igualdade”, que teria se iniciado desde a colonização humana.

Tal lamentável episódio acontecera há pouco mais de quarenta anos, quando mais uma vez a África chorou por seus filhos, como se já não bastassem todos os anos de pranto da pobre “mão impotente” que assiste sem nada poder fazer. Geme-se, chora-se, grita-se, pede-se por misericórdia, mas os lusos fundadores do cristianismo ignoram e enchem os navios. Lágrimas rolam sobre a negra pele daqueles que “ontem a Serra Leoa, / A guerra, a caça ao leão, / O sono dormido a toa, / sob as tendas da amplidão.../ Hoje... o porão negro, fundo, infecto, apertado, imundo”2 acordam com o barulho de um corpo ao mar. Choram e desesperam-se todos que mesmo sem uma única palavra, compreenderam que “lá nas areias infindas, / das palmeiras do país”3 jamais voltaram.

Aporta-se e vê a desconhecida terra das palmeiras e dos sabiás, carregando pesadas correntes aos pés, aqueles pobres escravos que “Ontem plena liberdade/ Hoje...cúmulo de maldade,/ nem são livres pra morrer”4. Trabalhar, trabalhar e nunca descansar, esta era a saga do pobre escravo, vivia sob uma rotina infeliz: passava a maior parte do tempo nos campos de cultivação, ou quando o corpo não mais aguentava, era jogado “na senzala, úmida, estreita”5, sem nada para poder fazer.

Vivendo num mundo de contrastes, distante de tanta desgraça, estava Ícaro, o jovem sonhador, decifrado por Biafra na música “Sonhos de Ícaro”, a qual exprime com exatidão não somente os sonhos do jovem grego, mas também de toda uma nação de infelizes escravos. “Voar, voar, subir, subir, /Ir por onde ninguém for”, desejos e palavras que dão vida a qualquer alma em cativeiro. Castro Alves assim como Biafra valoriza muito o direito de ser livre.

Segundo Jorge Amado, Castro Alves teve muitos amores, porém, o maior de todos eles foi a liberdade. Atribuídas qualidades ao poeta que escreveu sobre as desgraças dos desamparados, que em tantos poemas sociais tentou e mudou a sociedade a qual estava inserido, foi homem que amou a si mesmo e também o próximo, gritando aos quatro cantos do mundo o basta, “basta de covardia! A hora soa.../ Voz ignota e fatídica revoa, /Que vem... Donde? De Deus./ A nova geração rompe da terra, / E, qual Minerva armada para a guerra,/ Pega a espada... olha os céus”6. Estava lançado mais um defensor: a poesia engajada do nosso grande autor, que vendo tanta destreza colocou a folha e a caneta a serviço do condor, da justiça e da liberdade. Poesia para negros, brancos e índios, versos indignados que revelavam todos os horrores que um homem via, que a consciência remoía, resultando no discurso de piedade em nome daqueles pobres homens que são castigados sem terem cometido nenhum pecado.

Na possível pergunta de Ruby e nos vários questionamentos de toda uma nação negra sobre a justiça do homem de de Deus, passaram-se décadas, séculos que decorreram sobre várias histórias, perdas e principalmente lágrimas. Fez Martin Luther King com sua famosa frase “Eu tenho um sonho...” a unificação de todos os pensamentos e falas de um povo que tem alma e coração igual a todos, no entanto viveu e ,infelizmente, vive oprimido, ainda muito esquecido desde a era colonial.

Somente depois de grandes perdas e grandes impulsos (como o de Castro Alves e Luther King), que a nação oprimida revela-se e toma posse do cargo mais alto e talvez o mais cobiçado do mundo. Em uma tardezinha congelante do mês de janeiro, após aproximadamente um século e meio de sofrimento afro, surge à frente de 2 milhões de pessoa e para o mundo todo através da televisão, jornais, rádios e internet uma nova motivação para a população negra erguer-se e continuar em frente. Estava lá, era realmente inacreditável, o mundo assistia a um dos países mais brancos do mundo e o mais poderoso de todos eles, eleger um homem negro para dirigi-lo.

Preste bem atenção! O mesmo país no qual na década de 60 linchara uma menina negra por frequentar uma escola para brancos, agora elege para a presidência da nação um negro. Deve-se concordar que muita coisa mudou, não só nos últimos quarenta anos, pois esse processo de integração social foi (e é!) gradativo e iniciou-se há muitos anos e deve se estender por muitos também.

Apesar das várias etapas que faltam para essa “gestação” ter fim, muito já foi cumprido, graças aos homens de boa fé que lutaram não só por seus interesses, mas também tentaram de alguma forma ajudar o mundo e as pessoas que nele residem. Barac Hussein Obama está se mostrando homem de vários acertos, e um dos primeiros é atribuído ao seu slogan da campanha presidencial, “Sim, nós podemos!”, e ele estava realmente certo, podiam e conseguiram, não só os afro-americanos, mas também toda a raça negra, branca, índia e todas as outras etnias, pois o mundo todo ganhou em cidadania.

 

Texto produzido pela aluna Rebeca Guerreiro Antunes Braga, turma 121, do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Bahia, campus Barreiras, orientado pela professora de Língua Portuguesa, Poliana Miranda Sampaio Almeida.

 

1“Vozes d'África” de Castro Alves.

2“O Navio Negreiro” de Castro Alves.

3Idem.

4Idem.

5“Tragédia no Mar” de Castro Alves.

6“Estrofe do Solitário” de Castro Alves.

 

 

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